Espelho Elétrico

Das realidades.


Pois era para ser covarde e dar cabo àquela vida de ausências. E agora – sem bondade e com uma dor abissal – decide que viver é o melhor troco. O troco - e os altos preços – de uma espera-sem-fim, pela liberdade do imprevisível. Troco tudo por uma tarde amena com sorvete. Trocaria, se pudesse, minha alma por uma fuga. A noite de tantas gentes alegres por um mantra que livrasse a tristeza de mim.

Na algibeira do jeans mal-passado um resto de bem-querer que – pífio – samba entre o lixo e o fundo da gaveta.

Hoje todos os verbos estão no passado e acredito que isso pode trazer o futuro. Sou passageira da agonia – hoje o título é meu. Minha angústia são os gritos secos-ocos pela rua madrugadeira. São os socos-ocos que levei do vento ao sair de casa, só. Minha angústia não tem dono: é uma vadia que ronda os computadores do centro, penetrando a redoma de vidro que se constrói ao redor daquilo em que – enxergar, sentir, entender – equivocadamente se crê. (Mira, eu já não estava conseguindo ser muito.) Agora meu saldo de vivacidade e bom humor – coisas que quase nunca tive - é negativo. Mas a boa-vontade com o mundo me retro-alimenta.

Agora a pouco, madrugada alta nas ruas do centro, acompanhei um cortejo. A "banda da cidade" navalhou as ruas sombrias com música e cor. Era eu quem a apresentava aos transeuntes que invariavelmente dormem debaixo das marquises. Era eu que fingia ter uma batuta nas mãos, comandando a folia inocente da virada cultural. Sorri, ébria, debruçada sobre meus desencantos, tropeçando nas garrafas. Era eu, inclusive, que deixei inundar as calçadas com um contentamento despropositado com a vida, tão presente nos rostos da noite, tão presente nos sábios – dissimulação minha.
Eu parecia um palhaço desiludido, fotografia óbvia em p&b. Sorriso amarelo, saltando pelos postes decorados, a cidade acesa e liquefeita.

Aquelas marchinhas eram para que a tristeza se desgarrassse de mim e, solidamente, se grudasse em qualquer mais frágil. Era eu ali, insana, sem pele, exposta ao sal e ao rancor, exposta à madrugada fria que penteia meus cabelos quando viro a esquina - e já não vejo mais a banda. Era eu que fingia estar feliz.
*
grey...

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guilherme, pois é, sou campeã mesmo, rs.

Publicado em 06 de maio de 2007 às 02:23 por anabanana

Comentários

    • nossa, ana... o que tá acontecendo com o seu layout? vc tem que tomar cuidado com as tags que usa nos posts...
    • por moraes
    • 06.Mai.2007 às 09:45 - Permalink - Reportar
    moraes
    • Eu ouvi esta banda emitindo sons silenciosos, regida pelas batutas de tua tiste alegria, e isto me trouxe uma paz desesperadora por saber que ali estava mais uma natureza viva a procurar não se sabe o que.
    • por nicodemos
    • 06.Mai.2007 às 22:26 - Permalink - Reportar
    nicodemos
    • Oi Ana! Coloquei mais fotos do céu de Brasília lá no meu blog. Vai lá dar uma olhada. Bjos!
    • por fabricio
    • 09.Mai.2007 às 16:03 - Permalink - Reportar
    fabricio
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