Não sei se os tipos que já se mudaram desta casa chegaram a mencionar o fato, ou simplesmente abriram a porta e se foram. Como quando não se despede do dono da festa só para não atrapalhar, ou porque simplesmente se está bêbado mesmo, impossibilitado de atender aos anseios dos convivas para que fique mais um pouco – ou quando a carona resolveu ir antes de virar abóbora. O fato é que estou de partida.Sobre minhas motivações apenas resumo que a rotina é urgente, dentro de uma taça de vinho, como qualquer outra taça no mundo, simples e barata, o vinho "ambiente" e seco, na janela aberta que deixa o frio arejar um pouco o apartamento. Estou pronta para partir, porque aqui já vivi muitas boas histórias virtuais e reais. Aqui tive pelo menos dois romances interessantes, beijei pelo menos um tipo em segredo (rá!), fiz pelo menos dez amigos, e desses dez pelo menos cinco estão cercados pelas jaulas imaginárias que construí para aprisioná-los e manter vivo o que eles representam para mim. Também fiz pelo menos um inimigo e, sem rancor ou culpa, admiti no divã ter raiva de outro ser humano porque me vi tendo que me defender daquilo que sou: igual. Alimento de longe a curiosidade de conhecer pelo menos três tipos, os quais leio em silêncio. Gostaria que dois outros voltassem a escrever, sentindo saudades de pelo menos quatro, desejando que fôssemos vizinhos.
Não sou do tipo que se despede blasé, feito uma cigarrilha dançante entre os dedos da moça desiludida no balcão do bar. Quase faço questão de dizer que sinto muito por estar crescendo, porque dóem as rotinas tão complicadas que escolhi como cenários dessa minha busca pelo que sou – e que ainda conheço tão pouco. Alguns podem dizer "Ana, não fode!", mas a urgência da vida não pode mais ser mascarada pela minha própria urgência de escrever. É que estou apegada tanto às realidades daqui que de virtual só preciso das fugas. A internet não faz parte de mim. Tenho cá meus dois endereços de e-mail, o orkut, alguns links legais de psicanálise, um outro blog, anônimo. E só. Ando deslocada quando penso que os costumes e tradições que me "subjetivaram", me transformando em uma pessoinha arisca, mas complascente, não existem mais. Digo dos contatos reais, digo do café na casa da vizinha, do passeio à beira da praia aos domingos, digo de ver as crianças aprendendo a andar de bicicleta, dos pais inebriados pelo fenômeno de dar vida a outro ser, digo de todos os bolos nordestinos e todas as braçadas no mar que desfrutei com minha avó, meu avô, meu irmão e minha mãe. Sou alimentada pela saudade, mas hoje sinto minha capacidade de resgatar antigos hábitos e valores que acreditei não existirem mais – e a condição sine qua non, aqui, exclui a internet e o que há ao redor desta casa. O que me impulsiona, agora, por exemplo, são as doces ansiedades da psicopedagogia e a possibilidade de plantar sementes para tranformar o mundo em um lugar mais saudável, justo e humano, seja através do trabalho, das relações com as pessoas, das crenças religiosas, seja através da imaginação ou da ética humana. Alguns podem ficar escandalizados, por já não terem esperança alguma no dia de amanhã, mas tenho acreditado mais nas pessoas e em mim mesma, tenho apalpado os sonhos, tenho sentido que eles são concretos e indeléveis, como indeléveis são as amizades que fiz aqui nesta casa virtual e acolhedora. Hoje quero andar pelas ruas livre de segundas intensionalidades e livre do acaso. Quero continuar fluindo pela vida, escorrendo por essa selva de pedra que me ensina a viver, por dentro das pessoas que conheço, tingindo as páginas do livro, tingindo de colorido a vida daqueles que realmente estão. O cordão umbilical que me une a Londrina não pode ser o mesmo cordão que me une às virtualidades.
Estou pronta, as malas estão na porta, mas estou feliz, apesar de ocasionalmente as lágrimas começarem a marejar meus pensamentos. Prometo mandar postais, fotografias, fazer visitas reais, passando por Londrina, Curitiba e, quem sabe um dia, Alemanha? Prometo ser fiel às minhas lembranças e continuar sendo a "::anabanana::" de sempre, descascada, passada e doce. Oh!
A música que escolhi marca muito bem esse novo episódio que estou vivendo e de quebra transmite uma mensagem singela, mas verdadeira. Nada melhor que simplesmente ser.
São as asas que cresceram em mim e são os vôos que estão por vir.
Good vibrations a todos.
O dah ho
(André Abujamra)
O dah ho o dah raia
Tamanho de caminhão
Buzina de fusquinha
Tamanho de lambreta
Força de trator
Nem tudo que aparenta ser é
Tudo que é, é
Pensar é fácil
Fazer é difícil
Sujar é fácil
Limpar é difícil
Casar é fácil
Regar é difícil
Gostar é fácil
Amar é difícil
David Maomé Jesus Cristo
Brahma Buda Ghandi São Francisco
David Maomé Jesus Cristo
(Olorum Olorum Olorum)
Brahma Buda Ghandi São Francisco
(Olorum Olorum Olorum)
Nem tudo que aparenta ser é
Tudo que é é
Olho por olho dente por dente balela
Porque o homem vai ficar cego e banguela
Dante morte sangue explosão
A morte ao vivo pela televisão
Morreu cinco mil e trala-la
Isso é normal se eu não conheço
Se conheço começo a chorar e acho que vou me vingar
Matar pra ficar mais feliz
Ai eu enxergo que se eu matar alguém que gosta de alguém que eu matei vai querer me matar
E aí vai atrás de mim
E se me mata a pessoa a pessoa que me matou vai ser morta por quem me amou e assim por diante
E o sangue correndo e a vida acabando e a morte chegando e a luz apagando
E o escuro cobrindo e a poeira subindo e o fogo queimando.
Publicado em 09 de junho de 2007 às 11:52 por anabanana
Não vai embora não!!! Mas se for o melhor, tens o meu apoio. Espero te encontrar mês que vem (to indo pra Sampa!).
Um beijo grande.